“O Agente Secreto” não é um filme ‘esquerdista’ e sim, de sucesso. E alguns veem nisso um problema.

 “O Agente Secreto” não é um filme ‘esquerdista’ e sim, de sucesso. E alguns veem nisso um problema.

Wagner Moura, interpretando três papéis em “O Agente Secreto” tem colecionado premiações mundo afora

Belém, 21 de março de 2026 – A cerimônia de entrega do Oscar, maior premiação do cinema mundial, foi realizada em Los Angeles, EUA, no domingo, 15. A festa que celebra a Sétima Arte caminha para completar um século de celebração. Em 2026, a edição foi de número 98. Este ano, os brasileiros torceram mais ainda, depois da vitória de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, como Melhor Filme Internacional em 2025. O longa nacional “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, chegou ao Oscar com quatro indicações, mas em uma disputa bastante forte, o filme saiu da festa sem nenhuma estatueta.

Esquerdista – Em um Brasil, às vésperas de mais uma eleição geral e em clara polarização, “O Agente Secreto” traz essa dicotomia para as discussões, principalmente, nas redes sociais. Mesmo com quatro indicações – o que só havia acontecido com “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, em 2004 – o filme disputou Filme, Filme Internacional, Casting e Ator, para Wagner Moura, o primeiro ator brasileiro indicado ao Oscar, a produção não deixou de receber críticas.

A principal delas é “mais um filme esquerdista”. Essa afirmação vem muito pelas entrevistas e declarações de Wagner Moura sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro e o mandato dele, de 2019 a 2022.

Sem muito conhecimento sobre o mercado de cinema e sem muita base para falar consistentemente, as críticas, no geral, são neste nível: “Wagner Moura virou isso. Um socialista de galinheiro que adora o luxo capitalista e vive nos EUA”.

O fator Moura – Pelo rumo das prosas, Moura é “socialista e adora o luxo capitalista”. E por isso, ele não tem direito de opinar sobre o que acontece no país onde nasceu, pois atualmente vive nos EUA?

Moura vive, trabalha e mora nos EUA porque precisa. É lá que está o mercado de trabalho que o acolheu. Há algum impeditivo de que alguém procure um emprego melhor, para ganhar mais e, sendo ator, receber o reconhecimento mundial?

O ator vive em Los Angeles, desde 2017, para onde se mudou com a família buscando impulsionar sua carreira internacional, onde mora com a esposa, Sandra Delgado, e os três filhos. A mudança se deu após o sucesso da série “Narcos”, produção da Netflix, na qual Wagner interpreta o mega traficante Pablo Escobar. Embora estabelecido, Wagner quer retornar ao Brasil após os filhos completarem os estudos.

Wagner e Sandra na festa do Oscar 2026

Onde reside o problema de alguém procurar o melhor para si e sua família e ainda assim ter consciência política, principalmente, se a pessoa sempre falou sobre esse assunto, como é o caso de Wagner Moura?

Na própria cerimônia do Oscar, o ator espanhol Javier Bardem estava com um broche que pedia o fim da guerra, e disse “Palestina livre”, quando participou de uma apresentação. Ninguém reclamou, nem falou. É a opinião dele e ninguém tem nada a ver como isso.

Kleber e as polêmicas – “O Agente Secreto” foi desenvolvido por Kleber por 10 anos. Há uma década, ele e Wagner Moura se encontraram no Festival de Cinema de Gramado, e o ator manifestou vontade de trabalhar com o diretor. Começava ali o caminho de filme.

Kleber Mendonça Filho dirige Wagner Moura no set de “O Agente Secreto”

Kleber é um diretor pernambucano que sempre produziu filmes polêmicos, com forte presença da cultura do Brasil. Foi assim desde “O Som a Redor”, de 2012, passando por “Aquarius”, com Sônia Braga – que também mora e trabalha há décadas nos EUA -, de 2016. Depois vieram “Bacurau”, de 2019, e o documentário “Retratos Fantasmas”, de 2023.

Todos esses filmes têm no DNA o nome de Emilie Lesclaux, esposa de Kleber, produtora cinematográfica e cientista política francesa radicada em Recife, Pernambuco. Enquanto Kleber se preocupa em fazer filmes, Emilie cuida da produção e dos financiamentos, a maior parte deles de cunho internacional, devido ao grande conhecimento que ela tem na área.

“Aquarius” esteve no Festival de Cannes em maio de 2017. Os atores e o diretor do filme, contrariando a orientação da presidência do certame, fizeram um protesto nas escadarias do Palácio do Festival contra a política do governo Michel Temer na área cultural e contra o impeachment de Dilma Rousseff. Começava ali a fama de “esquerdista” de Kleber. O filme não foi indicado pelo Brasil ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, preterido por “Pequeno Segredo”, de David Schurmann.

A “fama” só aumentou quando “Bacurau” chegou às telas, em história que mostra uma visão muito negativa dos perigos dos apagamentos da memória e sobre o futuro do Brasil em frente ao totalitarismo. Mesmo com uma premiação no Festival de Cannes, a corrida ao Oscar foi brecada e “Bacurau” foi preterido por “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, na escolha brasileira à categoria de Melhor Filme Internacional em 2020.

Quando, enfim, “Retratos Fantasmas” conseguiu a indicação pelo Brasil, em 2024, ele não entrou na lista do Oscar. E veio “O Agente Secreto”.

Agente – “O Agente Secreto” é uma coprodução da França, Holanda, Alemanha e Brasil. Produzido pela CinemaScópio, de Kleber e Emilie, o filme teve estreia mundial no Festival de Cannes em 18 de maio de 2025, competindo pela Palma de Ouro, que venceu em Ator para Wagner Moura e Direção para Kleber, além do prêmio FIPRESCI e o Prix des Cinémas d’Art et Essai, concedido pela Associação Francesa de Cinemas de Arte.

Kleber Mendonça Filho e as premiações de “O Agente Secreto” no Festival de Cinema de Cannes em 2025

O filme foi comprado, ainda em Cannes, pela NEON, empresa gigante de distribuição de filmes em nível internacional que aposta em filmes independentes, produzidos fora dos grandes estúdios do EUA, como a Warner. E teve início a vitoriosa carreira pelo mundo de “O Agente…”

Dos filmes que concorreram ao Oscar 2026, a NEON colocou nas listas da premiação, além de “O Agente Secreto”, o norueguês “Valor Sentimental” – que derrotou o filme brasileiro na disputa em Melhor Filme Internacional; “Arco”, que concorreu em animação; e “Foi Apenas Um Acidente”, do Irã, mas representando a França, e o espanhol “Sirát”, os dois também em Melhor Filme Internacional.

Wagner Moura e Leonardo DiCaprio na festa do Oscar

Com orçamento estimado em cerca de US$ 6,5 milhões, foi o filme que teve menor valor de produção entre os dez que concorreram a Melhor Filme no Oscar 2026. Em termos de comparação, “F1: O Filme” tem estimativas que vão de US$ 200 milhões a US$ 300 milhões. De dólares.

No Globo de Ouro de 2026, em janeiro deste ano, foi indicado em três categorias: Filme em Drama, Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama, vencendo Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator. Na 98.ª cerimônia do Oscar teve quatro indicações.

Wagner Moura ganhou o Globo de Ouro de Melhor de Drama em 2026

Dinheiro público – “O Agente Secreto” não recebeu repasses da Lei Rouanet, mas teve investimento público do Fundo Setorial do Audiovisual que repassou à produção R$ 7,5 milhões, intermediados pela Agência Nacional do Cinema – Ancine, repasse que pode ser acessado por qualquer produção nacional, e é voltado para a divulgação e distribuição de filmes no Brasil e no mundo.

A Lei Rouanet não financia longas-metragens. Por Lei, atende a produções cinematográficas de curta e média metragem e ações de preservação e difusão do acervo audiovisual. A Rouanet é voltada às produções de shows e de teatro.

Wagner e o ator Benício del Toro, à esquerda, o diretor de cinema, o mexicano Guillermo del Toro

“O Agente Secreto” não é um filme esquerdista, é um filme de sucesso! E é isso que parece incomodar. A produção assinada por Mendonça já coleciona mais de 70 prêmios no mundo todo. Tanto sucesso chamou a atenção da major Netflix, que entrou de produtora associada, depois das indicações ao Oscar e colocou “O Agente Secreto” no catálogo dela, onde o filme já pode ser conferido também.

Texto de Dedé Mesquita – jornalista e crítica de cinema

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