Memória da imprensa belemense e o caso Correio da Boca do Inferno

 Memória da imprensa belemense e o caso Correio da Boca do Inferno

O poeta e encrenqueiro Gregório de Matos Guerra, o “Boca do Inferno”

Corria o ano da graça de 1998, quando a internet ainda estava engatinhando. Na redação de O Liberal, mais especificamente na Libnet, o braço do grupo com as primeiras iniciativas na rede mundial de computadores, em um sábado pela manhã, o jornalista Vlad Cunha chegou para trabalhar, ligou o computador e foi conferir os e-mails da noite.

Para surpresa de Vlad, um e-mail tinha o título de “Correio da Boca do Inferno”. Quem foi atento às aulas de Literatura sabe que “Boca do Inferno” era o apelido do poeta [e encrenqueiro] do Brasil Colônia, Gregório de Matos Guerra, e nosso colega abriu o e-mail imediatamente.

A surpresa foi aumentando e mostrava uma devassa da vida profissional e pessoal de quase TODOS os jornalistas de O Liberal. O e-mail tinha o login de Aline Monteiro, era do finado Zipmail, e o texto era um primor de sarcasmo e muita maldade.

Ofensas e calúnias – O Gregório paraora tinha absoluto conhecimento da vida de quase todos os colegas de redação, alguns, ele respeitou e até elogiou, mas era ferino em outros quando, por exemplo, falava das jornalistas do falecido caderno Cartaz, o de entretenimento de O Liberal, a quem chamava de “mimadas”. E ainda esculhambava com o editor à época.

A pessoa sabia de detalhes íntimos de colegas que tinham envolvimento com outros colegas e até aqueles que namoravam motoristas da redação. Mas era de uma maldade suprema quando lançava suspeitas sobre como algumas das jornalistas tinham conseguido entrar na redação.

O texto “entregou” quem fazia “chen” na redação; quem tinha tomado o marido de outra; quem mandava e desmandava na redação; quem puxava saco para ganhar a confiança da chefia; até sobre a anatomia íntima de uma repórter e outras baixarias a mais.

Reação – Assim que os outros colegas foram chegando à redação, o e-mail ganhou as ruas. Eu, por exemplo, estava em casa, tive que ligar a minha internet discada para ler o e-mail. Foi um fuzuê.

Imediatamente, alguns dos editores do jornal se reuniram, passaram a analisar o texto e logo surgiu um suspeito, pela forma como o texto seguia. Em seguida, entrou em ação a TI do jornal e chegaram, logo, ao IP de onde o e-mail partiu e, consequentemente, ao nome do emissor.

Mas a confusão já estava armada e, de noite, no bar Baixo Reduto, na rua Manuel Barata, frequentado por quase todos os jornalistas de Belém, àquela época, as páginas do e-mail foram fixadas nas paredes e outras cópias rolavam de mão em mão. Além do que, algumas redações de Belém receberam o tal e-mail por fax [te lembras do aparelho de fax nas redações?]

O domingo passou e na segunda-feira, com todo mundo na redação, alguns já sabiam o nome do “escritor”. Por volta das 9 horas, eis que a pessoa chegou na redação, e foi chamado pela direção, não sem antes, se solidarizar com os colegas citados no e-mail.

A pessoa chorou, se desculpou, implorou, mas foi demitida. Assim como, acabou perdendo o cargo de assessor de imprensa na Uepa.

Suspeitas – Um detalhe/desconfiança foi que quem analisou detalhadamente o e-mail, chegou a conclusão de que o e-mail poderia ser “obra”, não apenas de uma pessoa, mas de três e que o ALINE, seria, na verdade, uma sigla formada pelas iniciais dos nomes dessas três pessoas. Mas isso nunca pode ser provado.

Outra suspeita foi que essa pessoa queria ser jornalista do caderno Cartaz, mas nunca conseguiu. Fez também um TCC na UFPA sobre os Mutantes e foi orientado pelo grande Lúcio Flávio Pinto (LFP), que deu um EXCELENTE ao trabalho, coisa raríssima em se tratando de LFP. Mal o querido mestre sabia é que, já àquela época, o Control C + Control V rolava direto na redação de O Liberal nas reportagens escritas por essa pessoa. Fato que foi denunciado à chefia de redação.

Lenda urbana – A pessoa que levou toda a culpa, mais tarde, se formou em Jornalismo na UFPA, acabou passando em um concurso do Governo do Pará e atua em uma das assessorias de comunicação do Estado. Ficou assim como uma “lenda urbana” do jornalismo de Belém. Se alguém o via na rua, no ônibus, chegava na redação e falava “Vi o fulano…”. Assim, com aquele ar de mistério.

E mais não conto, porque não estou aqui para chutar “cachorro morto”. Mas que houve essa história, ah! houve. E vocês aí reclamando das minhas postagens aqui no site. Eu, pelo menos, dou a minha cara a tapa e protejo as minhas fontes.

Quando comecei a trabalhar no grupo O Liberal em 1999, um dia, procurando uma reportagem perdida nos arquivos, dei de cara com o “Correio da Boca do Inferno”. Que deve estar por lá ainda, se não apagaram os arquivos. Me deu até uma emoção. Não, nunca fiz cópia. E, sim, o Zipmail acabou. E, sim, até onde sei, ninguém o processou.

Quem respirou aliviados foram os jornalistas citados na lista que entraria no “Correio da Boca do Inferno 2”, que expandia as maldades para o jornal Diário do Pará, e iria elogiar as “belas pernas” de LFP, palavras do emissor. Não deu tempo!

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