Jornalista narra caso de racismo em seleção de emprego na Adufpa

“Estava relutante em fazer este post por conta dessa coisa dos bolsonaristas vibrarem da guerra entre nós, mas racismo é uma coisa tão grotesca, e vindo dos socialistas é mais alarmante e penso que compartilhar vai ser pedagógico”. 

É assim que o jornalista Fabrício Rocha, da rádio Cultura, abre uma postagem, publicada no perfil dele no Facebook, para expressar seu desabafo diante de um episódio deplorável que ele enfrentou, ao fazer sua inscrição para o cargo de assessor de comunicação da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Pará (Adufpa).

Jornalista de larga experiência, com especialização em Língua Portuguesa e graduação em Português, Inglês e Alemão, além de ser radialista concursado da rádio Cultura do Pará, colunista da rádio MEC Rio de Janeiro e da rádio UFSCar, Fabrício tem plena razão: o racismo é grotesco.

Mas, além de grotesco, o racismo torna-se ainda mais contundente, agressivo e degradante quando provindo de cidadãos com atuação em entidades e ambientes como o das academias, onde, em tese, a diversidade e a tolerância deveriam ser mais presentes, porque indistintas da pluralidade de conhecimentos oferecidos.

Ler o desabafo de Fabrício é, de fato, um exercício pedagógico para aferirmos as distâncias enormes que ainda precisamos percorrer, até que possamos afastar, concretamente, o racismo estrutural que ainda permeia a sociedade em todos os seus segmentos.

Veja aqui a postagem na íntegra, feita por Fabrício, na tarde de quarta-feira, 3. 

Estava relutante em fazer esse post por conta dessa coisa dos Bolsonaristas vibrarem da guerra entre nós, mas racismo é uma coisa tão grotesca, e vindo dos socialistas é mais alarmante e penso que compartilhar vai ser pedagógico.

Fui de manhã, início da tarde desta quarta na casa do professor da ADUFPA (Sindicato dos professores da Federal) para fazer a inscrição na seletiva para o cargo de assessor de comunicação. Sempre bom encontrar os colegas na batalha pela primeira, segunda ou terceira jornada de trabalho (Julius!!). Aquele clima de blog da Dedé, com renovação de informações das redações, é sempre bom. rs.

Saí para fazer algumas cópias e voltei para ser o último da fila. Mas, inacreditavelmente, depois dessa clima festivo,, dentro de um sindicato de socialistas, conseguiram me destratar e me humilhar. Primeiro de tudo, o absurdo de pedir 3 vias impressas de currículo com todos os comprovantes e exigir inscrição presencial no meio da pandemia para fazer conferência de documentos. Gente, um formulário do Google faz isso. Colegas com trajetória longa desembolsaram mais de R$ 200 reais só para as cópias e impressões.

Eu sou do mestrado de Comunicação da UFPA, tenho especialização em língua portuguesa, com graduação em português, inglês e alemão, além de possuir minhas DRTs de jornalista e radialista. Sou concursado da Rádio Cultura do Pará, sou colunista da Rádio MEC RIO e da Rádio UFSCar, tb desenvolvo materiais para outras rádios do Brasil. Trabalhei como assessor de imprensa de inúmeros eventos nacionais em Belém. Já até me indicaram para alguns prêmios jornalísticos, mas não me acho especial.

Uma senhora loira de óculos, que não me conhece e nunca tinha visto antes, estava recebendo os documentos e disse “Você está desrespeitando os jornalistas vindo se inscrever aqui, pq hoje em dia qualquer um é jornalista”. Não contente ela chamou o Gilberto Marques, coordenador da entidade, que ao invés de acolher e dizer que tudo seria analisado, foi ríspido para sair na defesa da senhora loira de óculos. O pior foi que ele puxou o edital e foi ler na minha frente, em voz alta!!!! Percebam a cena montada.

No edital está em aberto 3°grau em comunicação social (publicitário, visual, administrador de conteúdo…). Sou produtor/adm de conteúdo há 15 anos, por isso fui lá. Gilberto leu o edital e a empáfia deu lugar a uma cara de dúvida porque o edital não era bem como aquela a senhora loira de óculos que me atendeu dizia ou como o próprio Gilberto supunha.

Restou ele dizer que a comissão de seleção iria analisar. Só de pensar nessa forma de tratamento para uma mera inscrição, imaginem uma reunião de trabalho com essa gente, o nivel de assédio e sofrimento psicológico que eles podem gerar com o poder de ser patrão.

Continuei explicando minha trajetoria para essa senhora loira de óculos para esclarecer o que eu estava fazendo lá, ela simplesmente disse: “-se vc é tudo isso, o que você vem fazer aqui na ADUFPA?”. Claro que estou chocado, abalado e triste e sem entender os colegas da ADUFPA.

Nem precisa dizer o quanto de racismo tem nisso tudo. Não precisa dizer o quanto foi difícil para mim chegar até aqui, o quanto as oportunidades são menores para nós. Podemos está no mestrado de comunicação da federal, podemos ter especialização em língua portuguesa para para melhorar o texto, atuar como assessor de imprensa para evento nacional, desenvolver produtos midiáticos há 15 anos para diferentes locais do Brasil, mas sempre olham com desconfiança para vc, vc tem sempre que derrubar as portas. Os revolucionários da ADUFPA fizeram o mesmo, não te permitem se quer concorrer, barrado na entrada, o pretinho último da fila… um Clássico!

Eu me senti humilhado pelos “socialistas” da ADUFPA. Professores/Educadores da Universidade Federal do Pará! Ao contrário deles, os liberais de direita de Belém, mesmo com minhas críticas públicas contra eles, sempre respeitaram meu trabalho e minha trajetória.

Queria reafirmar que não envergonho e nem desrespeitei meus amigos como afirma esta senhora. No final da tarde, depois de todo esse abalo psicológico, recebi um zap dizendo que minha inscrição havia sido aceita. Na mesma hora, agradeci e pedi que fosse retirada.

É um dia muito triste para mim porque vivi tão próximo da ADUFPA parte significativa da minha vida. Talvez as críticas do PROIFES não estejam todas equivocadas… Vou formalizar a questão dentro dos fóruns dos docentes. Vai ser pedagógico.

Com informações do blog do Espaço Aberto (de Paulo Bemerguy)

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