Jornalismo Memória: o caso do assassinato da missionária americana Dorothy Stang

Coberturas jornalísticas sempre são marcantes, ainda mais quando o assunto tem alcance mundial. O fotojornalista Raimundo Paccó, o acreano mais paraense paraense-brasiliense que conhecemos fez uma postagem no perfil dele no Facebook que é pura memória: a cobertura sobre o assassinato da missionária Dorothy Stang, há 16 anos, em Anapu, região sudeste do Pará. 

Acompanhe: 

“Amanhã, dia 12 de fevereiro de 2021, completam 16 anos da morte da missionária Dorothy Mae Stang que sempre atuou em defesa dos trabalhadores e trabalhadoras do Pará e da região Amazônica. [Ela] foi assassinada aos 73 anos no município de Anapu, que fica às margens da Transamazônica, no sudeste paraense. A freira ficou conhecida internacionalmente pela forte atuação contra os fazendeiros, madeireiros e grileiros na região do Xingu, e foi executada com seis tiros à queima-roupa a mando dos fazendeiros”.

“Entre as cinco pessoas envolvidas na morte de Dorothy, todos foram a julgamento e condenados. No entanto, a maioria cumpre a pena em regime semiaberto. Seu caso teve repercussão internacional e até hoje as famílias dos pequenos agricultores sofrem ameaças. Após 16 anos da morte da americana, que tinha mais coragem que qualquer homem nascido na floresta, nada ou quase nada foi feito para melhorar as condições do povo pelo qual a freira deu a vida. As mesmas dificuldades de antes, nada mudou. O poder público continua sem chegar nesse local, onde o poder ainda está vinculado a uma arma de fogo”. 

“Os primeiros fotógrafos da grande imprensa a chegar em Anapú, poucas horas depois do assassinato da freira, fomos eu [Paccó], por O Liberal, e o Paulo Santos (AP), vindo de Brasília onde eu estava de férias. Estava em um restaurante com meus filhos, do nada, um telefonema mudou toda minha vida naquele momento. Tive que deixar meus filhos rapidinho em casa para embarcar com urgência em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Fomos para Belo Horizonte (MG) pegar o ministro Nilmário Miranda e partimos para Altamira”.

“Nessa época do ano, estamos em pleno inverno Amazônico. Chegamos em Altamira por volta das 19h, partimos para uma nova aventura: encarrar 135 km de lama e buracos da Transamazônica dos tempos de inverno. Mas como tudo estava dando certo não seria uma lama e buracos que iriam tirar o foco. Foi quando surgir um motorista que, de primeira, o Paulo já queria tomar o volante do pobre rapaz. Nunca vi tanta competência em pilotar na Amazônia. O rapaz nos surpreendeu de forma positiva, chegamos em Anapú por volta de 23h30”.

“Onde estava o corpo da irmã Dorothy? Como tudo estava dando certo, mais uma vez, entramos na sede de um pequeno posto médico. Ao fundo, tinha uma sala, lá encontramos a cena que nunca mais saiu da minha cabeça: um caixão todo melado de sangue e um agricultor cuidado do corpo”.

“Passadas doze horas, tínhamos conseguido fazer a primeira imagem profissional da morte da irmã, que tinha como razão de vida ajudar os moradores da floresta”. 

“Na verdade, a memória de Dorothy ainda existe por poucos agricultores que não deixam ela morrer, literalmente. A luta do povo da freira continua lá firme e forte, dentro do possível, agora com novos guerreiros”.

Relato pessoal – Eu, por exemplo, estava em casa, de folga da redação do jornal Amazônia, já que era um sábado. Meu chefe, à época, era o Antônio Carlos (Tonga) Pimentel Jr. Ele me ligou e disse apenas: “Dona Dedé, mataram aquela missionária americana que luta pelo povo de Anapu. Vê aí o que descobres”. Não voltei à redação, mas passei o resto do dia às voltas com o celular. À tarde, consegui alguma luz, quando a Polícia Civil do Pará – grata, Walrimar Santos – informou que o delegado Waldir Freire estava indo para Anapu. 

O jornal Amazônia, àquela época, era o que ‘fechava’ mais tarde dos três de Belém. Com um tempo à frente, às 18h, ainda estávamos em busca das parcas informações. Foi quando a luz se fez maior: a Polícia Federal, sob as ordens do presidente da República, Lula, também estava no caso, e o delegado à frente das investigações era uma pessoa de nome estranho: Uálame Machado. Isso mesmo, o atual secretário de segurança do Governo do Pará. 

Contatos com o assessor de imprensa da PF – grata, Fernando Sérgio -, e ele me passou o contato do delegado Uálame. Era muito difícil conseguir falar com o povo em Anapu, mas conseguimos, e a reportagem foi feita. Passei duas semanas, falando diariamente com o delegado Uálame, duas, três vezes ao dia, para só o conhecer em outubro daquele ano, às vésperas do julgamento dos envolvidos no caso, e quando nós fizemos uma reportagem retrospectiva de todo a história, “chamando” para o julgamento que iria começar. 

O “caso Dorothy Stang” foi uma das mais marcantes coberturas que já fiz na vida. Escrevi muito sobre esse caso. Acompanhei o julgamento dos acusados. E, acredito, ainda sei vários detalhes de mais essa “tragédia amazônica”. 

Miguel Oliveira – O jornalista Miguel Oliveira, que mora atualmente em Santarém, tem um relato sobre esse acontecimento: “O primeiro jornal a chegar ao local do crime, lá no travessão do PDS foi o já extinto jornal o Estado do Tapajós, que eu editava e que hoje deu lugar ao Portal OESTADONET. Até hoje mantenho no anonimato o nome do fotógrafo, a pedido dele, por motivos de segurança. Nossas fotos, distribuídas pela Agência Estado, capa do jornal Diário do Pará, foram publicadas em 97 países, por mais de 250 veículos de imprensa. Foram usadas pela cineasta norteamericana Anne Westman. Dois dias depois do crime, O Liberal conseguiu fotos feitas pela Polícia Civil, cuja chegada ao local do crime foi concomitante ao da reportagem de O Estado do Tapajós”.

“Minha equipe estava em Anapu. Assim que avisada, viajou em uma Toyotta alugada pelo jornal para sair de Altamira. Está tudo publicado, inclusive na imprensa nacional. [O fotógrafo] Paulo Santos, anos depois, me pediu as fotos para um foto-varal em Belém, justamente porque as nossas fotos eram exclusivas”.

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