ADVENTO DO DIGITAL

Quando bate 'aquela' saudade dos filmes em película

Arte sobre rolo de filme em película e claquete

Os estúdios americanos deram o primeiro passo para acabar com o negativo na produção de filmes. Segundo o Filme B, o portal brasileiro, a empresa de cinema Paramount anunciou que não vai mais produzir filmes em películas. Daqui para frente só trabalha com digitais. Fonte: Ancelmo Gois/O Globo (2014).

Mesmo sendo pessoas moda à antiga, algumas tentam se adaptar à modernidade, porque não há volta, mas elas não deixam de sofrer com isso, especialmente na parte que toca ao cinema.

Por exemplo, algumas não me conformam com esse caminho sem volta para a imaterialidade dos filmes. Como conviver sabendo que os filmes não mais existirão e que não será poderá mais “tocá-los” e “vê-los”?

Não a propósito, ontem, na saída da sessão de “Ninfomaníaca”, vimos um aviso dizendo que haveria uma sessão extra do filme, e em outra sala. Meu amigo Alessandro Baía disse: “Se fosse na época da película, isso não seria possível”. E, essa é a realidade. Com os filmes em digital, agora tudo é on line e regido pelos terabytes  - se é que já não tem outra unidade para medir o tamanho dessas “coisas”).

Romântico - Um momento romântico se vai. Nunca, nunca mais, pelo menos para os novos filmes, teremos as charmosas latas com os rolos de filmes, com os rolos de 20 minutos, cada, com os chicotes de identificação, que os projecionistas juntavam para formar um longa-metragem. E nunca, nunca mais o barulho do filme rodando de bobina pra bobina. Lembras do vinil, do barulhinho da agulha riscando os sulcos? Com a película é assim.

Lembro de uma história bacana. Há uns anos eu gerenciei o Cine Líbero Luxardo. Numa das programações, conseguimos trazer àquela sala o filme “Até o Fim do Mundo”, direção de Wim Wenders, em 1994. Na véspera da estreia, o projecionista do cinema, o grande Carlos Lobo, me ligou e disse “Dedé, tem duas latas do filme que estão sem chicote. Vai ficar complicado montar”. Traduzindo: sem chicote, sem identificação. Num filme em película, o finalzinho de cada parte tem uns 12 fotogramas com a identificação, que permite se juntar à próxima parte e, assim, montar o filme em sua totalidade.

Num filme como “Até o Fim do Mundo”, com quase três horas de duração, duas partes sem chicote, é quase suicídio e vai sair tudo errado. E o Lobo ainda me disse: “Já olhei, olhei os finais e não é possível, porque é tudo muito escuro”. Eu já tinha visto o filme em VHS (quem se lembra disso?), e falei ao Lobo. “Tu passas as partes uma a uma, e nós montamos o filme juntos”. E assim foi. Nunca me esqueci disso. Eu, sozinha, na sala do cine Líbero Luxardo, vendo parte por parte e “montando” o filme com ele. Diz se isso não é lindo? Se não é coisa bonita e nostálgica??

Digital - Agora, com o advento completo e total do digital, vai ser possível ver a estreia mundial, por exemplo, do new “Avatar”, a nova megalomania de James Cameron. Veremos juntos, aqui em Belém, em S. Paulo, Nova York e até Sidney, na Austrália e em outras partes do mundo.

É bacana? É, mas não é. O romantismo se foi pra sempre. A película se vai, assim como se acabaram os formatos Super 8, 16 mm, VHS, enfim, essas coisas “palpáveis”. E eu confesso não gostar nem um pouco dessa modernidade toda.

Enfim, mas isso é coisa de gente rabugenta como eu. Parafraseando Carlos Drummond de Andrade. “Agora o cinema será apenas uma lata de filme em película, em alguma cinemateca... E como dói”.

Texto escrito há seis anos, em 2014

 

 

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