QUANDO VOAM AS CEGONHAS

Os rostos reais no cinema soviético

Filme "Quando Voam as Cegonhas", de 1957

Por João Ricardo Dias

A autora e crítica de cinema, Josephine Woll, em um excerto de seu livro intitulado “The Cranes are Flying”, retrata a recepção do filme homônimo em outros países além da União Soviética.

Durante uma turnê promocional na Alemanha Oriental, a atriz principal de “Quando Voam as Cegonhas”, Tatiana Samoilova, recebeu um relógio de presente, com a seguinte inscrição “Finalmente vemos na tela do cinema soviético uma face, e não uma máscara”.

Talvez esse seja um dos maiores méritos do filme "Quando Voam as Cegonhas", dirigido por Mikhail Kalatozov, em 1957, que se distingue por trazer uma narrativa a qual, pelos padrões soviéticos, é pouco convencional, e por seu engenhoso trabalho técnico na edição e fotografia, que trazem uma beleza única para a obra.

Trama - Os protagonistas Boris (Aleksey Balotov) e Veronika (Tatiana Samoilova) são pessoas comuns, cujas vidas não são atreladas ao espírito da revolução socialista que ocorreu na União Soviética ou à propaganda do governo stalinista, o qual estava em vigência no contexto de Segunda Guerra Mundial, em que o filme se passa. Eles não são representantes da classe trabalhadora e não são imbuídos de um heroísmo pautado pela luta a favor dos operários. Ambos representam o que era, provavelmente, de fato a realidade da sociedade civil soviética no referido contexto: indivíduos que não são guiados pelo ideário revolucionário, mas possuem rotinas ordinárias, que são interrompidas pelo conflito.

Não é coincidência que uma obra desprendida do stalinismo tenha sido produzida no ano de 1957. Nikita Khruschev, que sucedeu a Stalin como o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, acabara de lançar a política do Degelo, que flexibilizou políticas estatais de censura e repressão política no País. Logo, não é exagero dizer que “Quando Voam as Cegonhas” trouxe um sopro de realidade para um cinema que, há muito tempo, encontrava-se estagnado em um mundo fantasioso de ideais e do dever ser.

Cegonhas - O início do filme já traz a imagem que o torna emblemático: o voo das cegonhas no céu de Moscou. Os personagens principais as observam, próximos a um rio, onde começam a planejar o casamento. No entanto, a invasão surpresa das Forças Armadas Alemãs à União Soviética impacta profundamente os planos dos dois. Boris participa do alistamento para o Exército Vermelho e logo é chamado. Veronika descobre a decisão do namorado pela família dele e o procura antes que ele parta para o front.

A câmera que acompanha Veronika em sua busca de Boris imita o ritmo acelerado e desesperado da sua procura, chegando ao ponto de atravessar uma passarela ocupada por tanques de guerra para encontrá-lo. Embora Boris não se encontrasse muito longe dali, o casal não consegue se encontrar em meio à multidão. Essa cena é um paralelo a uma sequência anterior, em que Boris percorre os inúmeros degraus das escadas que levam ao apartamento de Veronika, até conseguir encontrá-la. Embora extremamente próximos um do outro, a busca continua a ser incessante e, aparentemente, infindável.

Após a partida de Boris, a narrativa acompanha a forma com que Veronika lida com perdas materiais e afetivas, a constante preocupação de receber notícias ruins vindas do conflito e, principalmente, a descoberta de um novo posicionamento frente à sociedade. As escolhas da jovem, em nenhum momento, são julgadas pelo próprio filme, sendo papel do espectador entendê-las como corretas ou não, mais um ponto que contribui para o extremo realismo com que a personagem é construída, separando-se do idealismo e do moralismo que acompanhavam protagonistas femininas nas películas soviéticas anteriores.

Sofrimento - Uma das sequências mais memoráveis do filme mostra Veronika correndo do hospital em que é voluntária, após ser humilhada por seu sogro. Kalatozov a acompanha com uma câmera rápida, de maneira similar à cena dos tanques, mas que, dessa vez, está imbuída dos sentimentos que explodem na personagem. Melancolia, vergonha, frustração. Tudo o que é sentido por Veronika é sensível por meio dos closes em seu rosto e a proximidade da câmera, que nunca abandona seu corpo. Uma das melhores representações de vulnerabilidade que lembro de ter visto em filmes, nos últimos tempos.

Ao final do filme, a guerra acaba e se tem uma das poucas representações do orgulho patriótico soviético, por meio de um discurso feito por um militar. No entanto, até esse discurso não é dedicado à glória dos ideais socialistas, que foi consagrada pela vitória no conflito. A fala é dedicada às perdas sofridas pelos cidadãos e às feridas causadas pelo conflito, as quais são curáveis, mas também simbolizam o ódio pela guerra e todas as causalidades advindas dela.

Sucintamente, as ações de Veronika, no final do filme, representam a esperança por um amanhã - representado pelo símbolo de uma nova fase, um bebê, neto de um dos generais -, melhor para ela e todos os cidadãos soviéticos. A última cena mostra as cegonhas voando novamente, representando não só o retorno à paz, mas também a união dela com Boris, que não necessariamente é concretizada, mas, acima de tudo, possui caráter espiritual.

Fotografia - A fotografia de Sergey Urusevsky, inicialmente, captura amplas e belas paisagens, tornando a ambientação mais acurada e trazendo um tom mais poético e contemplativo ao que era a vida antes da guerra. Posteriormente, os lugares retratados são decadentes, destruídos pelo conflito. Nesse sentido, as noções de perda trazidas pelo filme são muito sensíveis, o que não significa que são desprovidos de beleza. No entanto, tudo o que é belo nessas cenas é acompanhado da inevitável melancolia que a guerra traz para todos os envolvidos.

A princípio, uma história de amor interrompida pela guerra não parece ser a ideia mais original de todas. No entanto, um cinema que se sustentava, até então, nas heroicas montagens de Sergei Eisenstein e na transformação de seus cidadãos em tipos ideais necessitava do vigor realista de Kalatozov. O diretor é mais do que bem-sucedido nessa tarefa, sem se desprender das raízes da montagem soviética, mas trazendo um elemento completamente novo: os rostos da população soviética. Antes de Kalatozov, Samoilova e Balotov, o que existiam eram apenas as máscaras.

Um filme único, que não se encaixa nas divisões, nem de Eisenstein, nem de Andrei Tarkovsky, normalmente os únicos mestres realmente valorizados do cinema da URSS, e tão influente quanto ambos. Afinal, não é exagero dizer que se, 28 anos depois, a expressão do jovem Florya em “Vá e Veja”, de Elem Klimov, atingiu um nível extremo de crudeza, após presenciar os horrores do mesmo conflito, foi porque antes disso existiram Boris e Veronika.

“Quando Voam as Cegonhas” é uma das grandes obras-primas do cinema, e certamente uma das mais subestimadas. Absolutamente essencial conferir.

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