O REFLEXO DO LAGO

Festival de Cinema de Berlim seleciona longa metragem paraense

Fernando Segtowick e Thiago Pelaes em uma conversa com um dos entrevistados para o documentário "O Reflexo do Lago"

O dia 21 de janeiro vai ficar marcado pela divulgação dos filmes selecionados para a mostra Panorama Dokumente, da 70ª edição do Festival de Cinema de Berlim 2020, também conhecido como Berlinale. A mostra Panorama é a segunda mais importante - só perde para a mostra da competição principal - desse que é um dos três maiores e mais conhecidos festivais de cinema do mundo (os outros são o de Cannes, em maio de cada ano, e o de Veneza, em setembro).

A Berlinale começa no próximo dia 20 de fevereiro. E na mostra Panorama estão cineastas brasileiros de renome, como Karim Aïnouz, do recente e premiado em Cannes, “A Vida Invisível”, e estreantes na mostra, como o diretor paraense Fernando Segtowick, que assina seu primeiro longa metragem, o documentário “O Reflexo do Lago”, que terá em Berlim a sua estreia mundial.

O filme é uma produção da Marahu Filmes, e foi financiado pela política de fomento ao cinema da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e do Fundo Setorial do Audiovisual, no qual o desenvolvimento do filme foi realizado, por meio do Edital de Núcleos Criativos (PRODAV 3) e produção pelo edital PRODECINE 05

A trama é baseada no livro “O Lago do Esquecimento”, da fotógrafa Paula Sampaio, que há muitos anos documenta a vida de pessoas que vivem e moram às proximidades do lago formado pela barragem da hidrelétrica de Tucuruí, uma das maiores do mundo. Essas pessoas moram ao longo do rio Caraipé e muitas delas, mesmo morando muito próximo de uma geradora de energia, não têm luz elétrica em suas casas simples.

Segtowick conta essas histórias em preto & branco, acompanhado pela câmera de Thiago Pelaes, tais quais elas foram registradas por Paula Sampaio em suas fotografias de um realismo único. São histórias de “um país que se chama Pará”, de Belém para o mundo.

Para Fernando, um momento tenso foi quando ele soube, oficialmente, que o filme estava selecionado e constava do site oficial do Festival de Berlim. “É um susto. Ainda estamos tentando ordenar tudo. Mas quando vimos que, em um total de 35 filmes na mostra em que ‘O Reflexo do Lago’ está selecionado, o still do nosso filme foi um dos cinco escolhidos para ilustrar o site, começamos a entender que a coisa é muito séria”, conta, divertido.

“É bem difícil que o primeiro filme longa metragem de um diretor estreante em festivais, ainda mais do Brasil, entre nesse tipo de mostra tão grande e tão abrangente. Mas, ao mesmo tempo, se penso que são 20 anos fazendo cinema no Pará, com todas as dificuldades, e ter esse reconhecimento em um festival, que é um dos maiores do mundo, eu acredito que valeu a pena, sim”, conclui.

A mostra na qual o filme de Fernando está selecionado e exibido é a mesma onde, no ano passado, esteve o documentário do pernambucano Marcelo Gomes, “Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar”, um dos melhores filmes brasileiros de 2019.

Trajetória - Fernando Segtowick é, antes de tudo, um apaixonado pela Sétima Arte. Anos atrás, era um estudante de Engenharia Elétrica, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Pouco tempo no curso, e ele percebeu que a área de Exatas não era exatamente o rumo que ele queria na vida dele.

Mudança radical, e Fernando já era um dos alunos do curso de Comunicação Social, na mesma universidade, na turma de 1993. A mudança para a área de Humanas colocou Fernando em contato com a ‘galera do cinema’. Foi ele um dos fundadores do grupo Amigos do Cinema, que fazia exibições de filmes clássicos, com debates - acalorados - depois.

Guarnicê - Em 1995, o Centro de Letras e Artes publicou um edital para vídeos um minuto. Fernando foi um dos contemplados, para em seguida, participar do Festival de Cinema Guarnicê, em São Luiz (MA).

Fernando conseguia manter a carreira no jornalismo, paralelo a de cineasta. Ele foi um dos três filmes de curta metragem selecionados no primeiro edital de filmes da Prefeitura de Belém, em 1999, com “Dias”.

Dias - Com o curta “Dias”, Fernando já começou a mostrar que o cinema ‘mais simples’ não era a intenção dele, e, para uma das cenas cruciais do filme, a produção fechou a avenida Visconde de Souza Franco, a Doca, centro de Belém, durante duas noites para a gravação das cenas.

Depois de “Dias”, Fernando continuou a produzir, sempre, e em meio a tudo isso, ele ainda encontrava tempo para ser também jornalista, com passagens pelo grupo ORM, pela empresa de mineração Alunorte e pela ONG Conservação Internacional.

Cinema, sempre - Em 2010, Fernando dirigiu o curta metragem “Matinta”, curta baseado na lenda paraense da Matinta Perera, que deu o prêmio de melhor interpretação feminina para a paraense Dira Paes, no Festival de Cinema de Brasília.

Em 2014, com o curta documentário “No Movimento da Fé”, sobre o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, ganhou três prêmios - incluindo o de Escolha do Público - no Festival de Cinema de Pernambuco, o Cine-Pe.

Foi nessa época em que ele se juntou ao diretor de fotografia Thiago Pelaes e fundaram a produtora Marahu Filmes, que teve passou a produzir filmes, como o doc “O Caminho das Pedras” e a ficção “Canção do Amor Perfeito”.

Durante todo o ano de 2019, a Marahu trabalhou na produção do programa em treze episódios “Sabores da Floresta”, que estreia no dia 24 deste mês, às 21 horas, no Canal Futura. Em paralelo, Fernando finalizava o doc “O Reflexo do Lago”.

Mas o dia 21 de janeiro ficará, para sempre marcado, como o dia em que o audiovisual paraense chegou a Berlim, na Alemanha.

A trajetória de Fernando Segtowick é baseada no trabalho duro de fazer cinema no Brasil, na árdua missão de insistir em cinema no Pará. E sem perder a humildade daquele adolescente que colocava toda a família Segtowick para atuar em vídeos domésticos sobre a Copa do Mundo de Futebol, por exemplo, e que conseguia fazer todos atuarem, dignamente, e contribuírem com o sonho do ‘menino Fernando’ de fazer cinema.

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